Este é um desenho
tradicional porém “contemporâneo” por que tem por trás o reconhecimento do
artista como sendo arte, utilizando apenas papel pincel, pano, e tinta à óleo. Pertence à uma série que obteve o
primeiro prêmio no Salão do Museu de Arte de Goiânia, Goiás em 1984. Poderia
ser também uma pintura, já que as linhas limitanantes não são tão evidentes.
Isto, porém, é para discussões acadêmicas e não importa agora. Sendo figurativo
mas sem clareza, pode parecer muitas coisas, inclusive um corpo humano,
mostrando detalhes de nádegas gordas e desformes, vestindo calcinhas ou cuecas.
Arte tem disso, gosta de ser independente do artista e se sugerir e impor com novas idéias além das escolhas do
artista, como um filho, uma criança que uma vez nascido, tem voz e vontade
própria. Porém, quando a pintei, tratava-se de representar conjuminâncias
variadas de lonas velhas e desgastadas, material que, na maioria dos casos, já
está desaparecida das embarcações do Ver-O-Peso e das cidades importantes e
seus trapiches e embarcadouros, sendo vistas ainda, mais nas costumeiras
paisagens ribeiras de habitação humana rarefeita, que ainda conservam autonomia
e tradição ante à globalização e o aculturamento progressivo. Nesses locais,
fora do espaço-tempo dominante, pode-se ver os panos costurados e remendados,
velas que colhem nos seios o vento benfazejo que alivia a dor da
impractibilidade e da falta de comprometimento social, dos parcos recursos
financeiros e ideologias. São velas semi-desaparecidas ou envelhecidas por
falta de manutenção, pela sujeição às intempéries, enfim, reflexo da vida dura das
viagens, do trabalho pesado, das idas e e vindas nos barcos com pescado,
tralhas e pessoas que vivem e trabalham com precariedade à beira dos rios,
isolados do conforto urbano, um povo que ainda encontra razões para se permitir
ser feliz, ou, pelo menos, ser alegre circunstancialmente, como no Círio de
Nazaré, quando vêm à Santa ou mesmo no refúgio de seu imaginário de cores
alegres e felicidade aparente.
Esta pintura, ou desenho, não
importa, é uma homenagem à essa população pobre e também um veículo modesto
para chamar atenção para os irmãos de rio e suas difíceis condições de trabalho.
Um reclamo contra o descaso da sociedade quanto à transformação de seus
valores, objetos e materiais típicos que desapareceram ou se encontram em
estado de desaparecimento. Essa arte portanto, perdoem-me os puristas, não é
uma lírica descrição, ao contrário, contém preferências ideológicas e
compromisso com a cultura social do nosso tempo.

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